Ansiedade no desporto de competição

Ansiedade no desporto de competição

 

Definição de ansiedade

Ao se falar sobre ansiedade, deve-se tomar cuidado com a confusão de conceitos em relação ao medo. Ansiedade e medo são emoções que muitas vezes se confundem, e a distinção entre ambas não é muito clara. Ambas as emoções envolvem padrões fisiológicos e psicológicos que incluem emoções desagradáveis e tensiogênicas, que podem ser percebidas quando se está para começar um jogo, num momento de decisão ou uma situação nova.

Para Frischnecht (1990), a ansiedade é um estado psíquico, acompanhado de excitação ou inibição que pode comportar uma sensação de constrição na garganta, que surge quando o indivíduo está incerto acerca do que pode fazer, para responder eficazmente ao que lhe é exigido e que é importante para ele (VIANA, 1989).
Tipos de ansiedade

Spielberger (1966) apurou o conceito de serem feitas duas medidas separadas de ansiedade: uma avaliação chamada ansiedade-traço, representando a disposição da personalidade de modo quase permanente (portanto, estável), e a outra, ansiedade-estado, mostrando as reações do indivíduo a situações ou tensões temporárias.
Causas e efeitos da ansiedade

É muito limitada a rápida detecção da ansiedade por conta das várias possibilidades de sua origem. No entanto, é sabido que qualquer situação onde haja alguma insegurança, a torcida, os familiares e o próprio professor ou técnico colaboram para este desarranjo emocional (MACHADO, 1997).

O sucesso, a crítica, e a oportunidade esperada são algumas das tensões vivenciadas pelos indivíduos, e, desta forma, podem ser fatores ansiogênicos, pois dependem da percepção e da interpretação que cada pessoa tem dos acontecimentos (DAMÁZIO, 1997). Quanto ao aspecto de percepção da situação, Frischnecht (1990), declara que a ansiedade é o resultado de uma maneira de encarar o mundo em geral ou uma situação em particular, e da forma como se pensa a respeito dos mesmos. Sendo assim, não é o contexto que torna o indivíduo ansioso (nervoso), mas sim a maneira como este contexto é visto e encarado por ele.

Os indivíduos com índices altos de ansiedade tendem a ter mau desempenho ao se defrontarem com alguma situação estressante, ao contrário daqueles que apresentam níveis baixos de ansiedade. Os indivíduos que enfrentam tensões diárias, crônicas, amor ou guerra, podem ter um aumento geral nos seus níveis de ansiedade, tornando-se mais vulneráveis a um futuro problema causado pela tensão (DAMÁZIO, 1997).

 

Frischnecht (1990) afirma que a ansiedade é um dos impeditivos mais comuns para uma boa performance. Em casos extremos, seus efeitos criam enormes dificuldades que chegam a perturbar a concentração, pois níveis excessivos de ansiedade tendem a restringir o “campo” de atenção, e o atleta poderá começar a prestar atenção somente a um número de sinais limitados, diminuindo assim sua performance. Os atletas mais ansiosos chegam até a esconder lesões de seus técnicos com medo de não conseguirem manter seu lugar no time. (DAMÁZIO, 1997).

Segundo Frischnecht (1990), quando se está ansioso ocorre um aumento da frequência cardíaca, do consumo de oxigênio, da pressão arterial e da frequência respiratória. Além disso, podem ocorrer náuseas, delírios, secura de boca, sensação de fadiga ou fraqueza, bocejo frequente, tremores, ações nervosas (como roer as unhas, mexer as pernas, enrolar os cabelos, etc.), sudorese profunda, micção frequente, fezes soltas, dificuldade em adormecer, aumento de tensão muscular – podendo ocorrer dificuldade na respiração devido à tensão dos músculos do pescoço e garganta (pode ocorrer estrangulamento no sentido literal e/ou figurado).

De acordo ainda com Frischnecht (1990), a fraqueza, a falta de equilíbrio das pernas, o aumento da frequência cardíaca e do consumo de oxigênio podem acelerar a fadiga, que é considerada o efeito mais pernicioso da ansiedade. No entanto, a tensão muscular é aumentada, fazendo com que, novamente, seja provocada uma fadiga precoce. Como a ansiedade exige esforço tanto do campo psicológico quanto do físico, temos, como resultado, uma limitação do campo perceptual e do foco.

Conclui-se que um dos efeitos mais ameaçadores da ansiedade é a tendência que o indivíduo tem de extrair pensamentos para evitar ou fugir dos acontecimentos.
Relação com a atividade física (não-atletas)

Segundo a Organização Mundial da Saúde (2001), o problema de saúde mental tem se constituído num severo agravamento na sociedade atual e, grande parte destes transtornos estão relacionados a sintomas de estresse, como a ansiedade e a depressão. Tradicionalmente são usados, em seus tratamentos, a psicoterapia e a medicação; no entanto, uma técnica não tradicional de tratamento que tem sido bastante difundida, é a prática de exercícios físicos e desporto. Tanto um como o outro promovem uma redução significativa da ansiedade de estado e os fatores fisiológicos a ela relacionados.

Existe evidência que a atividade física é capaz de beneficiar o praticante quanto aos estados de ansiedade, tão bem quanto alivia condições físicas que tenham sintomas de humor associados (BYRNE; BYRNE, 1993).

Dunn, Trivedi e O’neal (2001) concluíram, em revisão de estudos que relacionaram atividade física com depressão e ansiedade, que a há evidências de que a atividade física é capaz de diminuir a ansiedade; e que, ainda que o exercício aeróbico tenha mais potencial, o exercício com pesos também é capaz de reduzir o estado de ansiedade.

Uma sessão de exercícios aeróbios é suficiente para reduzir a ansiedade em indivíduos que, por algum motivo, se sentem ansiosos. Uma sessão de 50 minutos de ciclismo, a 70% do máximo, é capaz de reduzir o estado de ansiedade por 60 min após o exercício, sendo inclusive que o lactato sanguíneo não é indutor de ansiedade (GARVIN; KOLTYN; MORGAN, 1997).

Como a ansiedade é algo individual, desejar que o exercício e o desporto alterem este quadro rapidamente é considerado irreal. É necessário um tempo de prática que pode variar entre 4 e 20 semanas.

Dentre os benefícios individuais do exercício, incluem: redução da ansiedade-estado; redução de níveis baixos e moderados de depressão (CORAZZA, 2005; DUNN, TRIVEDI E O’NEAL, 2001); redução de níveis de estresse associados (BYRNE; BYRNE, 1993; GARVIN; KOLTYN; MORGAN, 1997) auxiliar no tratamento da depressão severa (DUNN, TRIVEDI E O’NEAL, 2001); enfim, benefícios diversos a ambos os sexos e a todas as idades.
Relação com o esporte (atletas)

De acordo Frischnecht (1990) todas as atividades musculares intensas estabelecem relações com vivências emocionais e, com isso, pode-se dizer que a tensão das reações emocionais atinge sua máxima intensidade em situações de competição. Dessa forma, a preparação psicológica dos atletas ganha uma importância cada vez maior no âmbito esportivo.

Segundo Machado (1997), as emoções podem tanto inspirar quanto inibir a prestação desportiva. Quando as emoções são positivas, o indivíduo pode, facilmente, atingir o sucesso. No entanto, quando toda a excitação se transforma em ansiedade, o atleta, provavelmente, começa a cometer erros.

Para Frischnecht (1990), somente no mundo do desporto podemos encontrar uma performance individual que é examinada por inúmeras pessoas. O resultado dos atletas são sempre julgados e avaliados por milhares de pessoas nos locais de competição, por mais milhares que assistem na televisão ou ouvem pelo rádio. Com tantos recursos disponíveis atualmente, as performances podem ser repetidas, descritas, analisadas e criticadas pelos órgãos de imprensa, estabelecendo pressão ainda maior sobre estes atletas.

É importante ressaltar, contudo, que quanto mais nos preocuparmos, mais a tensão nervosa cresce. Infelizmente, a excessiva preocupação a respeito da preparação para os treinos, dos comportamentos durante o confronto com os adversários, não auxilia na obtenção de melhor preparação, mas apenas provoca ansiedade em elevado grau. Sendo assim, até mesmo o fato de nos preocuparmos com as preocupações ou com os sintomas que a ansiedade está nos causando, pode se tornar uma fonte adicional desta mesma ansiedade.

Segundo Cratty (1984), Frischnecht (1990) e Machado (1997), não é incomum os atletas se sentirem nervosos antes de competições desportivas, já que sua auto-imagem ou auto-estima dependem do seu desempenho nestas competições e, dessa forma, estas situações podem se tornar muito assustadoras – ao invés de lutarem por medalha, dinheiro, honras de campeão, luta-se contra o próprio valor; ao invés de aguardar entusiasticamente a oportunidade de atuar, o atleta passa a recear, nervosamente, a aproximação das competições pelo simples medo de falhar.

Para os autores, embora sejam bem treinados técnica/tática e fisicamente, os atletas respondem de modo diferente aos estímulos externos durante uma competição, pois a pressão transfere-se para a área emocional. Dessa forma, atletas bem preparados podem apresentar transtornos de rendimento durante a competição, enquanto outros podem crescer de rendimento quando esta se apresenta.

De acordo com Cratty (1973), a relação entre treinador e atleta é determinante no envolvimento desportivo, pois ambos vivem situações de estresse em situações óbvias. Contudo, o modo pelo qual eles enfrentam este nível de estresse reflete o modo pelo qual cada um vai conseguir lidar com as emoções e características individuais do outro (treinador/atleta). Segundo este mesmo autor, os atletas passam a maior parte do tempo pensando nos seus treinadores e relembrando as frases ditas por eles, etc. Dentre muitas as qualidades que os atletas apreciam em seus treinadores podemos destacar a capacidade que eles têm de se organizar, motivar e manter uma postura calma.

Geralmente, é difícil encontrar a combinação treinador-atleta perfeita, no entanto, o profissional competente é visto pelos seus atletas como aquele capaz de entendê-los e tratá-los como seres humanos, além de desportistas. Esta relação, associada a uma formação técnica adequada, fará que o treinador seja uma pessoa bem sucedida profissionalmente.

Focando especificamente em crianças atletas, Viana (1989) comenta que os pais podem ter uma influência importante na qualidade das experiências competitivas de seus filhos, no desenvolvimento do seu auto-conceito e do controle emocional. Por outro lado, podem pressionar os mesmos demasiadamente ao definirem seu prestígio e auto-imagem de adultos, em função dos êxitos e fracassos dos seus jovens atletas. Nesta perspectiva, o treinador deve ter uma função fundamental na formação, informação e reorientação global das atitudes dos pais dos atletas com quem trabalha. Deve atuar de forma a esclarecer a razão e o objetivo do programa desportivo de seus filhos, além de manter expectativas realistas e ajudar os seus filhos a desenvolverem adequadamente suas próprias expectativas em função dos seus limites e potencialidades.

Esses jovens atletas demonstram sinais de grande ansiedade e se descontrolam com facilidade. Tais descontroles e sinais de ansiedade são evidências de que algumas etapas não se desenvolveram em suas respectivas épocas, ou melhor dizendo: nos momentos oportunos, adequadamente. Muitos são os casos de jovens atletas que mesmo em fase inicial de aprendizagem, ainda que apresentam um crescimento acelerado, são incluídos entre os que estão a disputar um campeonato de alto nível, sem que, efetivamente, atingiram uma fase maturacional ideal para tanto; e muitas vezes nem mesmo atingiram um nível adequado de aprendizado da modalidade para comporem quadros competitivos (DAMÁZIO, 1997). Tais desníveis, evidentemente, causam inquietações em todos os componentes da equipe, a começar pelo principal interessado: o próprio atleta; seguem-se a ele seus companheiros de equipe, que cobram pelo seu desenvolvimento físico; e seu técnico, que apostou muito em seu desempenho (esquecendo-se de que o desempenho atlético é um conjunto de fatores que perpassa do desenvolvimento físico ao cognitivo e emocional).
Controle da ansiedade

Frischnecht (1990) traz que a parte principal do controle da ansiedade consiste na modificação da maneira de pensar. No entanto, algumas vezes, um atleta pode apresentar um quadro de ansiedade pelo simples fato de não estar bem treinado para a competição e, neste caso, seria insensato preocupar-se com isto. Por meio de uma melhor preparação e de um treino mais eficiente, a ansiedade seria, provavelmente, remediada.

É de grande importância os fatores sociais, o contexto no qual o atleta e sua equipe estão envolvidos, a vontade de vencer, a motivação, a maturidade pessoal e esportiva, a união e coesão do grupo, os desafios já enfrentados, a história passada da equipe, as perspectivas futuras e, em especial, saber o que cada um, cada equipe está apostando em determinada partida, pois esta expectativa irá comandar o que poderá acontecer posteriormente.

Para o controle da ansiedade no desporto, a literatura tem apontado diversas estratégias, como por exemplo, relaxamento, visualização no caso do excesso e exercícios de ativação de metas, no caso de baixa ansiedade. Porém, não basta um treinador saber as estratégias de preparo físico e técnico de seus atletas. Ele deve possuir também capacidades de ensinar-lhes a lidar com seus estímulos de estresse. Existem competências psicológicas que o atleta deve aprender a dominar, para responder efetivamente às exigências da competição (VIANA, 1989).

Outra forma de controle da ansiedade se dá através de jogos, pois, se o “Ego” é a expressão do princípio da realidade que se desenvolve a partir do “real”, o jogo seria um meio de descarregar impulsos agressivos, pouco aceitáveis pela sociedade. A visão psicanalítica freudiana enfoca o jogo como uma forma de mecanismo de defesa do Ego contra a ansiedade frente às situações da vida cotidiana. Tal mecanismo de defesa pode vir através de fantasias, cujo aspecto simbólico carrega a tentativa de lidar com a angústia associada aos aspectos racionais (DAMÁZIO, 1997).

 

 

Texto de Dr. Rolando Andrade, Psicólogo da Seleção Nacional/Liberty Seguros em entrevista ao atleta Ivo Oliveira, campeão nacional de ciclismo/velódromo da selecção portuguesa.

Dentro do contexto competitivo a ansiedade revela-se como um factor determinante, uma vez que pode influenciar o rendimento dos atletas.

” É preciso saber ler a corrida, saber controlar o esforço e a ansiedade” (Ivo Oliveira – atleta de ciclismo/ velódromo da selecção portuguesa).

A confusão de conceitos neste domínio é notória; talvez uma das mais evidentes seja a equiparação entre as noções de “stress” e “ansiedade”. Importa pois clarificar estes conceitos. O stress encontra-se relacionado com as situações em que as exigências de determinada tarefa excedem as capacidades do indivíduo para realizar essa tarefa (Lazarus & Folkman, 1984). Por seu lado, a ansiedade é uma resposta de cariz aversivo (físico ou emocional) aos factores stressantes (Smith et all, 1998). Assim sendo, associada à noção de ansiedade existe uma percepção de dano ou ameaça, que pode gerar sentimentos de preocupação e medo relativamente à possibilidade da existência de prejuízos de natureza física ou psicológica, e que muitas vezes pode despoletar níveis de activação fisiológica exagerados (Matos, 2011).

“Eu sinto maior pressão nas competições importantes, mas não deixo que isso me afete” (Ivo Oliveira – atleta de ciclismo).

Apesar de poder desencadear pensamentos, emoções e sensações físicas desagradáveis, existe um lado positivo e até saudável na ansiedade e que pode funcionar como um mecanismo de sobrevivência.

Como refere Eysenck (1992), a principal função da ansiedade é detetar ameaças ou perigos em ambientes stressantes. Deste modo, a forma como os atletas mobilizam os seus recursos internos para confrontar as situações potencialmente geradoras de ansiedade, determina o tipo de resposta que cada um deles tem a essas situações.

A prática de desporto, especialmente aquela que se reveste de uma natureza competitiva, pode ser potencialmente geradora de ansiedade, não só porque se trata de uma área de realização e afirmação individual, mas também porque é uma forma de os atletas se exporem socialmente, e por isso, estarem sujeitos a fontes de avaliação e julgamento social.

Existem diferentes níveis de susceptibilidade individual perante a ansiedade. É neste contexto que se insere o conceito de ansiedade- traço, que diz respeito à tendência natural de cada um de nós para experienciar elevações dos níveis de ansiedade em função de acontecimentos de natureza stressante (Matos, 2011). Se por um lado esta é uma característica relativamente estável, por outro lado a ansiedade-estado, diz respeito a um momento específico, ou seja, é uma condição momentânea e transitória de ansiedade resultante da interacção de um conjunto de factores pessoais e ambientais.

 

A ansiedade pode manifestar-se a dois níveis, que normalmente interagem entre si. Do ponto de vista cognitivo, a ansiedade encontra-se associada a percepções negativas acerca das capacidades e expectativas negativas acerca do rendimento e manifesta-se através de sentimentos de preocupação, percepção de falha, problemas de concentração e problemas de controlo emocional. Do ponto de vista somático, a ansiedade manifesta-se através da activação fisiológica que conduz a um conjunto de sintomas (como por exemplo aumento do ritmo cardíaco, sudorese, tremores, sensação de boca seca, tonturas, vertigens, náuseas, vómitos, dores de barriga, diarreia ou sensação de desmaio).

A ansiedade é, pois, acima de tudo, um processo de natureza mental que depende da percepção e da avaliação subjectiva das situações competitivas, e que pode desencadear um conjunto de reacções físicas. Apesar de tradicionalmente encarada como algo negativo e perturbador, atualmente a ansiedade competitiva tem vindo a ser observada e estudada também pelos seus efeitos positivos (Cruz, 1996), nomeadamente através do uso de técnicas de gestão dos níveis de activação, que permitem aos atletas competir de acordo com os seus níveis óptimos de funcionamento.

Afectando ou promovendo o rendimento desportivo, a ansiedade pode também influenciar outros aspectos da competição, encontrando-se associada ao aparecimento de lesões ou ao abandono da prática desportiva, quando esta é encarada pelos atletas como demasiado ameaçadora ou perturbadora da sua vida.

O medo do julgamento social, a incerteza associada ao processo desportivo, o treino e os treinadores, as relações com os colegas, a percepção subjetiva do valor individual, os problemas de natureza pessoal ou a preocupação acerca do rendimento, são fatores que podem potenciar o surgimento de mecanismos associados ao stress ou à ansiedade.

“O que me preocupa é não atingir os meus objetivos. De resto podemos sempre agradar a uns e a outros não” (Ivo Oliveira).

Por outro lado a natureza e as características da competição, as pressões exercidas pela imprensa ou as viagens parecem ser factores fundamentais quando falamos do stress provocado pela participação em grandes competições (Cruz, 1996).

“A importância das competições pode gerar pressão. Na final do Campeonato do Mundo, na Coreia, eu senti pressão… mas tentei abstrair-me e concentrar me apenas na minha performance. No fundo é acreditar e saber aquilo que somos capazes de fazer” (Ivo Oliveira – atleta de ciclismo).

Assim sendo, não podemos conceptualizar o stress e a ansiedade sem pensarmos na interação entre um conjunto de factores associados aos atletas enquanto pessoas, e na interacção que a cada momento se estabelece com o meio que os envolve.

Desta forma a ansiedade deve ser avaliada e trabalhada tendo em conta as características individuais do atleta e do contexto onde o atleta se encontra inserido (Cruz, 1996).

“Pensar nos adversários, pensar nas características que eles têm, pode distrair-nos daquilo que queremos… e às vezes estar perante o nosso público pode ser bom ou mau… depende da nossa capacidade de gerir isso” (Ivo Oliveira – atleta de ciclismo).

Quando pretendemos trabalhar a ansiedade com os atletas não podemos utilizar “receitas mágicas”, que possamos aplicar a todos da mesma forma. Os atletas necessitam encontrar o seu estado emocional óptimo, que seja facilitador de níveis de rendimento elevados. Por isso, torna-se necessário conhecer a realidade de cada um, a realidade dos contextos pessoais e desportivos em que estão envolvidos e como é que avaliam subjectivamente a sua relação com o meio que os envolve. Por outro lado é necessário perceber de que forma avaliam os recursos que têm para lidar com as situações com que se deparam.

É determinante avaliar qual é o significado pessoal que os atletas atribuem ao desporto e a cada situação competitiva. É nesta dinâmica que podemos encontrar a explicação para que, perante uma determinada competição, um atleta reaja positivamente e possa até aumentar o seu desempenho, enquanto outro se sinta ameaçado, reaja negativamente e diminua o seu rendimento.

As exigências de uma determinada competição podem ser de natureza externa (por exemplo, competir com adversários mais fortes) ou de natureza interna (por exemplo, melhorar o tempo, melhorar a classificação). Por outro lado as aptidões que os atletas têm para lidar com essas exigências não são estáticas e é por isso que podem e devem ser treinadas e aperfeiçoadas, uma vez que os efeitos do stress e da ansiedade no rendimento são individualizados e mediados pelos recursos que os atletas dispõem para lidar com as situações.

Nesse sentido importa trabalhar com os atletas estratégias para a redução da ansiedade somática, através por exemplo, de técnicas de relaxamento muscular e controle da respiração. Concomitantemente, a um nível mais global importa trabalhar aspectos que influenciam a ansiedade cognitiva.

É preciso estar atento às expectativas do atleta relativamente ao seu desempenho, de forma que estas sejam adequadas às características das provas, dos adversários e às suas capacidades; é necessário ensinar os atletas a ter um pensamento e um discurso positivo, ensiná-los a gerir o significado subjectivo que atribuem a cada competição e a reavaliar a sua atitude face aos adversários.

Torna-se importante reforçar a sua auto confiança, encorajando o atleta relativamente às suas capacidades, proporcionando-lhe oportunidades de sucesso e reforçando sucessos que obteve no passado.

“Normalmente antes das competições penso nos objetivos que tenho de concretizar, concentro-me em mim, naquilo que tenho de fazer. Digo para mim mesmo que sou forte, não tenho de ter medo e que sou capaz de atingir o que quero. Preocupo-me mais com isso do que com os adversários… e isso dá-me uma sensação de controlo sobre as coisas” (Ivo Oliveira – atleta de ciclismo).

 

A formulação de objetivos que sejam específicos, realistas, concretizáveis e passíveis de operacionalização, ajuda a manter os atletas motivados, focados e promove a sua sensação de controle e domínio, e dessa forma diminui a probabilidade de ocorrência de factores de natureza ansiogénica.

Em relação ao ambiente de trabalho e competição, é fundamental manter uma atitude positiva, centrada no apoio emocional ao atleta, proporcionando-lhe condições de estabilidade, planeamento e organização e eliminando factores de possível distracção ou influência negativa, como por exemplo a presença de pessoas a quem o atleta seja particularmente sensível.

Como foi referido anteriormente, a ansiedade é um processo mental que resulta essencialmente da interacção entre as características das pessoas e as características das situações. E como os treinadores não são imunes à influência da ansiedade, é fundamental que se conheçam bem, conheçam cada um dos seus atletas e estejam capazes de proporcionar condições para que o binómio treinador-atleta possa funcionar no máximo das suas capacidades.

“É preciso trabalhar de forma profissional, ter vontade, motivação e gostar do que estamos a fazer” (Ivo Oliveira – atleta de ciclismo).

Sendo reconhecida a natureza multidimensional da ansiedade, o controle da ansiedade só pode ser atingido, conhecendo cada uma das variáveis envolvidas e como é que estas interagem entre si em cada atleta especificamente.

 

 

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